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Memorial

dc.contributor.authorSales, Francisco José Lima
dc.date.accessioned2025-11-24T16:22:50Z
dc.date.available2025-11-24T16:22:50Z
dc.date.issued2025-04-07
dc.description.abstractA palavra "memorial" possui diversos significados que vão além da simples definição encontrada em um dicionário comum. Trazendo consigo uma essência mais profunda e autêntica, o memorial representa um registro vívido e uma lembrança duradoura que testemunha um instante específico ou a história de uma vida. Funciona como um convite à contemplação e se destaca como um marco na memória. Em situações mais solenes ou acadêmicas formais essa expressão é considerada muito importante e possui significados específicos vinculados a ela. Nessa situação, o trabalho memorialístico é descrito como um registro completo que narra o trajeto profissional de um indivíduo, mostrando suas realizações, desafios enfrentados e contribuições feitas para uma área específica do conhecimento científico. É similar a uma pasta que acumula toda a produção acadêmica elaborada, as atividades de ensino conduzidas com estudantes e os programas de extensão universitária, junto com as experiências que moldaram a trajetória de um professor universitário. Contudo, o memorial não se resume a ser apenas uma mera lista fria de feitos ou datas. Acima de tudo, é uma oportunidade para o autor refletir sobre sua jornada de vida até agora; absorvendo lições aprendidas ao longo do caminho e talvez até vislumbrando o que está por vir no futuro. Além disso, o memorial lembra uma viagem. Viagem pelas narrativas, pelas lembranças, pelas histórias e pelos devaneios do seu autor. Assim, esse memorial nada mais é do que uma viagem no tempo. Dessa forma, o memorial serve como um espaço dedicado a narrar eventos passados com sinceridade, expressando-se por meio de palavras que lhe são familiares. Seguir adiante com o ato de escrevê-lo não só registra feitos anteriores, mas também fortalece tanto sua identidade pessoal quanto profissional – quem sabe até mesmo deixando sua marca registrada para as gerações vindouras. Alcançar o cargo de professor titular em uma universidade pública é visto como um momento marcante na carreira acadêmica de alguém. Por consequência, a progressão funcional para professor titular, culminância da carreira docente em uma instituição de ensino superior, pode ser compreendida como um verdadeiro rito de passagem. Assim como os antigos rituais marcavam a transição de uma fase da vida para outra, chegar à categoria mais elevada da carreira docente universitária, que é a de professor titular, simboliza a conclusão de um ciclo e o início – ou a finalização – de uma nova etapa profissional. Longe de ser apenas um reconhecimento das contribuições de um docente para a comunidade acadêmica, este memorial se configura como um espaço de reflexão e um acerto de contas pessoal com o percurso trilhado. Logo, esta viagem no tempo é o momento para eu refletir sobre as escolhas que fiz e os desafios que enfrentei ao longo da minha trajetória profissional. Isso inclui não apenas os obstáculos e contratempos que vivi durante minha passagem pela universidade, especialmente na Universidade Federal do Maranhão, mas também as dificuldades acadêmicas típicas desse período de formação. Entre esses desafios, encontram-se também as dificuldades interpessoais que, infelizmente, marcaram momentos significativos dessa jornada, como as perseguições perpetradas por colegas de departamento. Este memorial atesta o significado profundo dessa jornada, apesar dos inúmeros dissabores encontrados. Logo, essas experiências moldaram quem sou hoje e me ensinaram muito sobre a importância de falar sobre nossas vivências e de como a convivência entre pares é algo que pode impactar a vida das pessoas no ambiente laboral. Ainda que o termo "resiliência" não pareça apropriado para nominar minha resistência a determinadas experiências – muitas delas dolorosas – é inegável que minha trajetória na universidade pública foi marcada, pelo menos em boa parte dela, por uma persistente resistência. Longe de uma simples capacidade de "voltar ao estado original" após adversidades, essa resistência não se limitou a uma mera capacidade de "superar e seguir em frente". O que vivenciei foi uma luta constante para manter meus princípios e minha saúde mental3 e emocional4 em face de inúmeros conflitos e que afetaram significativamente minha vida pessoal. Logo, este memorial não seguirá o rigor formal de um texto acadêmico, caracterizado pela impessoalidade. Além disso, considero que a escrita de um memorial não exige regras fixas, pois cada pessoa tem seu próprio estilo e linguagem. Parto do princípio de que os registros aqui produzidos não eliminam o envolvimento entre emoção e razão, subjetividade e objetividade, contidos na contingência e na singularidade. Na realidade, este memorial alternará entre momentos mais informais e outros mais formais, embora o caráter informal, escrito em primeira pessoa, como se estivesse se dirigindo a um amigo de longa data, apareça com maior frequência ao longo do texto. Muito menos se apresentará como um relato biográfico, mas sim como um mosaico de momentos que marcaram minha trajetória. Será, como mencionado antes, como compor uma carta para um amigo, na qual tentarei mostrar a euforia de meus primeiros passos como docente, bem como as angústias e os dilemas que me acompanham hoje na complexidade do ambiente universitário. Outro ponto crucial a ressaltar é que este memorial não se limita a um mero documento formal para fins de progressão funcional. Ele representa, sobretudo, um registro das relações que moldaram minha trajetória acadêmica. Assim como a sexta tese de Marx sobre Feuerbach, ele evidencia a centralidade das interações sociais na constituição dos indivíduos. Portanto, este registro se apresenta como um conjunto de conexões estabelecidas entre mim, como autor que escreve e elabora, e o grupo que, de forma direta ou indireta, no passado ou no presente, partilhou comigo seus saberes, sua empatia, seu bom senso, seu carinho, sua amizade e suas vivências. Nesse sentido, quero expressar minha gratidão a todas as pessoas que contribuíram de alguma forma, direta ou indiretamente, para o meu crescimento pessoal e profissional e tornaram possível a criação deste registro. Assim sendo, este texto mostra não apenas minha vivência na universidade pública, mas também as relações significativas que moldaram meu crescimento pessoal e acadêmico. Por isso, desejo expressar minha gratidão especialmente àqueles que me deram suporte diretamente ao longo desta jornada, assim como a todos os outros que, porventura, não tenham sido mencionados individualmente – seja por esquecimento, descuido ou até mesmo por ingratidão – mas que, de alguma forma, contribuíram para esta trajetória até aqui alcançada. Aos meus pais, Mariano Sales (in memoriam) e Raimunda Lima, agradeço pelos esforços e sacrifícios que me permitiram trilhar este caminho e chegar até aqui. Aos companheiros e companheiras do Movimento Estudantil (ME), os "tribuneiros"5 da UNIFOR e da UFC: Ana Lúcia, John Kennedy de Araújo, Robert Burns de Oliveira, Campelo Costa Jr., Fernando Fernandes, Sinval Diogenes, Newton e Ricardo Albuquerque, Volnia Assis, as duas Fernandas (da administração e a da enfermagem), Mártir Silva e Neyla Menezes. Aos camaradas do Partido: Gilvan Paiva, Luís Carlos Paes, Carlos Augusto Diógenes (Patinhas), Chico Lopes, Inácio Arruda, Marize Lira Bezerra (in memoriam), Terezinha Braga Monte, Flavio Arruda e Roberto Burguês. Em especial, homenageio Gilse Cosenza Avelar (in memoriam), um aço em flor. Sem sua existência, talvez este memorial não existisse. Gilse foi uma das responsáveis pela tarefa dada por Pedro Pomar (in memoriam) de reorganizar o Partido Comunista do Brasil (PCdoB) no Ceará, junto com Abel Rodrigues (seu ex-companheiro) e Benedito Bezerril. Foi pelo Partido que revolucionei meu modo de pensar. Aos amigos e amigas do CEMES Luminoso, como ficou conhecido o curso, menciono Meire Mulher, Luís Pazzini, Ribamar Sá, Vichê, Ludmila, Maria José e o peruano Miguel (não lembro se esse era mesmo seu nome), cuja presença nos permitiu fazer a analogia com o grupo guerrilheiro peruano Sendero Luminoso. Um agradecimento coletivo aos "velhos" amigos do peito: Paula Albuquerque, Mauri de Carvalho, Joaquim de Sousa (in memoriam), Vinicius Ruas (in memoriam), Tarcísio Ferreira, Elisabeth Dutra, Maria José Cardozo, Conceição Raposo, Vespasiano da Hora (Vespa), Ludmila Lago, Jacinta da Silva (Preta), Altemar Lima, José Carlos Araújo, Vicente Calderoni (Vichê), Adriano Maia e Paula Moraes. Com amizade, afeto, companhia, solidariedade e desafios políticos e acadêmicos, todos fizeram parte dessa trajetória. Aos ex-educadores (os "nicróbios") da Escola de Formação Sindical da Central Única dos Trabalhadores no Nordeste: Acrísio, Danilson, Claúdia, Edneuza, Eveline, Flávio, Izabel, João de Deus, Marize, Mércia, Rejane e Sonia. Pela combatividade, irreverência e firmeza política, eles entraram para a história – embora anônima – dos que lutam e sofrem, mas que continuam de pé, convictos da necessidade de construir um novo mundo. Aos amigos e amigas que formaram o Grupo de Estudos do Trabalho (GET), em especial Marconi Gomes, Henrique Wellen, Zeu Palmeira, Francisco das Chagas (Chaguinha) e Ricélia Marinho: intelectuais que não se renderam à mesmice desse “Butantã” reacionário que é a universidade. Aos amigos do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais e Educação: Raimundo (Rái), Zé Lucena e Zé Carlos Silva, por compartilharem ideias e pelas longas discussões sobre universidade, conjuntura política e amenidades em mesas de bar. Aos professores que muito me ensinaram lições de responsabilidade e compromisso com a educação: em especial as professoras e os professores doutores Conceição Raposo, Franci Cardoso, Maria Doninha de Almeida (in memoriam), Antônio Cabral Netto, Eleonora Tinoco e José Willington Germano. À cantora, compositora, escritora e poetisa Maria Elisa Cantanhede Lago Braga Borges, ou simplesmente Elisa, ex-pró-reitora de Pessoal da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), agradeço por ser uma pessoa fundamental para que eu estivesse narrando minha história neste memorial. Ao reitor da UFMA, professor Natalino Salgado Filho, sem o seu consentimento, eu não teria sido redistribuído para a Universidade Federal do Ceará (UFC). Ao Fernando Magalhães, ex-presidente estadual da Central Única dos Trabalhadores no Maranhão (CUT-MA), agradeço por ter se disposto a contatar o ex-deputado federal Washington Oliveira, do PT do Maranhão, para encaminhar o número do processo de remoção que estava parado no então Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão (MPOG). Agradeço igualmente ao ex-deputado Washington Oliveira por ter atendido a esse pedido, mesmo não se tratando de uma demanda diretamente ligada à sua atuação parlamentar. Agradeço ao professor Moacir Feitosa pela confiança demonstrada em mim durante minha passagem na SEMED. Ao Júnior Aquino, o Pai Júnior, amigo e fonte de conforto espiritual para um comunista ateu. Agradeço ao Fernando Henrique Monteiro Carvalho, ex-Superintendente de Recursos Humanos da UFC, pela recepção e apoio quando da minha chegada na UFC. Ao professor Eneas Arrais Neto, grande alvinegro, amigo e colega do Departamento de Estudos Especializados (DEE), agradeço por me acolher sem questionamentos na UFC. À professora Vanda Magalhães Leitão, ex-chefe do DEE, agradeço pelo acolhimento fraterno após o incidente no outro departamento. Aos professores da linha de pesquisa "Filosofia e Sociologia da Educação (FILOS)" do Programa de Pós-Graduação em Educação Brasileira da UFC, especialmente Elenilce Gomes, Antônia Abreu de Sousa e Jerciano Feijó. Ao Dr. Geraldo Melônio, agradeço pela compreensão, paciência e tratamento humanizado que me dispensou em São Luís. Nunca me senti abandonado pelo senhor. À Dra. Clelma Pires Batista, a pessoa que mais me conhece por dentro, agradeço pela atenção e pelo igualmente tratamento humanizado dispensado a mim. Ao Dr. Leonardo Maciel, agradeço pela paciência no meu acompanhamento terapêutico nos últimos anos. Por fim, agradeço ao professor Magnus Gonzaga por me receber de forma empática e camarada na UFERSA. Acredito que isso se deve não apenas às nossas afinidades teóricas e metodológicas, mas também às esportivas. Como mencionado anteriormente, este texto pessoal não se limita à narrativa da minha carreira profissional; é uma análise dos últimos vinte e três anos dedicados ao ensino superior em três universidades distintas7. Trata-se de uma linha do tempo na qual tentarei reconstruir minha trajetória escolar e profissional, antes e durante minha atuação como professor. Durante essa jornada repleta de obstáculos, revelarei como naveguei por calmarias e mares turbulentos, buscando maneiras de preservar minha saúde mental e emocional. Retomando a metáfora inicial – Aviso aos navegantes –, ressalto que meu objetivo com aquele título não foi provocar, mas sim alertar os leitores sobre as turbulências da minha vida acadêmica. Assim como Maiakovski navegou por mares agitados (os da história), eu enfrentei as turbulências da universidade. De modo que, ao compartilhar minhas experiências no ambiente acadêmico, impregnadas de angústias e dilemas, busquei, ao meu modo, tal como o poeta em relação às ameaças e às guerras, “rompê-las ao meio, cortando-as como uma quilha corta as ondas.” Por isso, ainda estou na universidade até hoje. Pois bem, sem me preocupar excessivamente com a ordem cronológica, mas seguindo uma linha do tempo, tentarei registrar aqui o difícil caminho de resgatar um tempo que se faz presente, mas que muitas vezes se revela apenas como fragmentos de lembranças. Ao navegar nas águas revoltas desse oceano que são minhas memórias, passarei a relatar momentos significativos – tanto positivos quanto negativos – que marcaram minha trajetória acadêmica, profissional e pessoal. Será uma viagem prospectiva com a intenção de apresentar os “feitos acadêmicos”, começando por uma trilha retrospectiva que possa levar à compreensão dos motivos e sentidos dessa trajetória. Por último, já que uma rememoração de uma história na qual o narrador é a figura principal pode resvalar na parcialidade da seleção dos fatos, atribuindo um colorido especial àqueles de que tem maior simpatia ou negando o direito de voz a quem desmerece por antipatia ou mesmo raiva, quero deixar claro que minhas memórias não se preocuparão com esse dilema. Meu desejo é apresentar uma história peculiar, única e pouco conhecida, dado os aspectos pessoais que a caracterizam. Assim, esclareço que a contarei a partir do meu ponto de vista. Logo, este memorial buscará revelar a soma dos fragmentos que formam minhas lembranças – ecos de um passado que o tempo ainda não levou e que, a cada instante, teimam em ressurgir, muitas vezes como sombras que me atormentam. Em alguns momentos, nessa dança de adição que é a memória, ela me permitiu resgatar um ponto perdido ao lembrar de um fato esquecido. Em outros, porque as recordações já não são completamente fiéis, certos momentos insistem em se desvanecer, independentemente da minha vontade. Assim, este memorial não conta tudo; nem mesmo o que está registrado no documento denominado Lattes. Mas, infelizmente, a minha intenção não é essa. Contudo, tenho consciência que ali, no Lattes, estão as lembranças mais significativas para o mundo acadêmico, ou seja, o que há de mais importante para alcançar a última hierarquia acadêmica na universidade. Um outro aviso aos navegantes: neste memorial, tentarei utilizar uma linguagem neutra, que será empregada em momentos distintos do texto para preservar a identidade das pessoas citadas – sem identificar gênero, sexualidade ou identidade – especialmente na parte relativa aos acontecimentos lamentáveis que vivi na UFMA. Por falar nisso, essa seção será narrada como se fosse uma discussão sobre os resultados de uma pesquisa. Isso se deve ao fato de que, durante quase todo o período em que estive lá, quase nada "produtivo" foi acrescentado à minha trajetória acadêmica, aquilo que se chama de currículo Lattes. Boa viagem!
dc.description.physical189 f.
dc.identifier.urihttps://repositorio.ufersa.edu.br/handle/prefix/14443
dc.language.isopt_BR
dc.publisherUniversidade Federal Rural do Semi-Árido
dc.publisher.centerCentro Multidisciplinar de Angicos - CMA
dc.publisher.countryBrasil
dc.publisher.initialsUFERSA
dc.publisher.institutionUniversidade Federal Rural do Semi-Árido
dc.rightsinfo:eu-repo/semantics/openAccess
dc.rights.licenseAttribution-ShareAlike 3.0 Brazilen
dc.rights.urihttp://creativecommons.org/licenses/by-sa/3.0/br/
dc.subject.cnpqCIENCIAS SOCIAIS APLICADAS::ADMINISTRACAO
dc.subject.keywordMemorial
dc.subject.keywordProfessor titular
dc.subject.keywordUniversidade Federal Rural do Semi-Árido
dc.subject.keywordFull Professor
dc.subject.keywordFederal Rural University of the Semi-arid Region
dc.titleMemorial
dc.title.alternativeMemorial
dc.typeinfo:eu-repo/semantics/other

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