Entre pílulas e metáforas: o saber-fazer de sujeitos vivendo com HIV/AIDS sob tratamento antirretroviral
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A epidemia de infecção pelo Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV), causador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids), foi acompanhada de uma construção do imaginário social sobre a doença relacionado com a degradação moral e com o desfecho da morte precoce, chegando a ser interpretada como castigo. As posições moralistas e segregatórias lhe conferiam uma dinâmica estigmatizante. Com o advento e a modernização do tratamento antirretroviral (TARV), passou-se a um maior controle do vírus e da sua transmissão, assim como da morte, restando, como traços, o “vírus ideológico”. A prescrição de medicamentos e o seu consumo por toda a vida é condição obrigatória para a remissão da doença, a longevidade da vida e o desaparecimento da transmissão do vírus. Em meio a evidências e imaginários, metáforas foram ou são constituídas servindo à manutenção do estigma ou circulação de preconceitos, históricos ou novos, assim como na geração de apoio à adesão ao tratamento, à condição de enfrentamento de um processo terapêutico de longa duração e como elaboração subjetiva dos conceitos de saúde, doença e tratamento. Se o tratamento farmacológico se articula às metáforas constituídas sobre a Aids e, assim, com a experiência de cada sujeito, nos perguntamos no presente estudo que invenções singulares são possíveis a cada um. Apostou-se que, no manejo do tratamento, entre as pílulas e as metáforas sociais, cada sujeito elabora um saber-fazer com sua própria realidade, inventa metáforas singulares, com reflexos em sua própria experiência. Tratou-se de uma pesquisa descritiva e qualitativa, apoiada nos pressupostos teóricos da psicanálise. O pesquisador psicanalista não pesquisa apenas para a psicanálise, uma possibilidade, usa dos recursos de apreender da psicanálise para aprender, em especial quando processos subjetivos ou de produção da subjetividade estão em causa. Desde sempre a psicanálise se relaciona com a interdisciplinaridade, uma vez que envolve sociedade, cultura e humanidades. Os “sujeitos” ouvidos na pesquisa (os portadores de um testemunho da experiência) foram sujeitos vivendo com HIV/Aids sob tratamento antirretroviral. Utilizou-se da entrevista, mediante roteiro semiestruturado, a seguir tomada como texto testemunho da experiência, sob uma modalidade de escrita que toma inspiração nos “relatos de passe”, comumente adotados para a transmissão da experiência de tratamento psicanalítico. Os testemunhos permitiram a construção de elaborações em torno apreendido: as texturas do segredo, o desamparo e parcerias diante do diagnóstico e/ou adoecimento e o saber-fazer singular e emergente do estar em meio a vida. A experiência recolhe pistas aos sujeitos que abrem vias possíveis para construir um saber-fazer que promove alguma torção da realidade em que vivem e que lhes habilite a nomear o vivido. Extraímos, por fim, consequências sobre a tarefa do pesquisador, em sua escolha pela escuta do singular, assim como trouxemos à tona que, além da infecção, existe um percurso do sujeito por suas posições subjetivas, políticas e éticas, um trabalho em saúde ou a formulação de políticas de saúde que pense na escuta das metáforas, seja para localizar a quem estão endereçadas ou que laços sociais podem mobilizar.

