Um estudo sobre os personagens negros Túlio e Preta Susana no romance Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
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O romance Úrsula (1859), de Maria Firmina dos Reis, é um marco muito importante para a literatura brasileira. Isso porque, além de a obra ser considerada o primeiro romance abolicionista escrito por uma mulher negra, apresenta uma abordagem sobre o cotidiano das famílias de homens e mulheres escravizados vindos da África durante o regime da escravidão. São sujeitos que foram forçados a migrar de suas terras, por meio da diáspora. Essas pessoas não tiveram o direito de manter sua própria família s en d o oprimidas pela dominação da sociedade escravocrata colonial. Esta pesquisa tem como objetivo compreender como se dá a construção da voz, das relações de afeto e da identidade desses personagens negros esravizados: Túlio e Preta Susana, a partir do enfoque nas condições de subalternidade que os negros viviam naquele período. A pesquisa considera, inclusive, a opressão sofrida pela mulher negra, que não possuía nenhuma visibilidade social, ao se concentrar na análise de Preta Susana. As discussões sobre Preta Susana vão estar voltadas para a interseccionalidade, uma vez que a temática está inserida dentro do contexto de um sistema duplo de opressão no qual influencia as experiências dessas pessoas na sociedade. O estudo também teve como foco de análise o papel do personagem Túlio, um jovem que estabelece uma relação de afeto com o homem branco, embora sem constituir uma igualdade social, p o i s s e g u e a condição de sujeito submisso e silenciado. Para a realização deste trabalho, nos utilizamos de uma pesquisa qualitativa, em que foram estudados teóricos como Angela Davis (Mulheres, raça e classe, 1981); Gaytri Chakravorty Spivak (Pode o subalterno falar?,1985); Kabengele Munanga (Negritude, usos e sentidos, 2020); Luiz Cuti (Literatura negro-brasileira, 2010) e Kimberle Crenshaw (Mapeando as margens: interseccionalidade, políticas de identidade e violência contra as mulheres não brancas, 1985). Os resultados desta pesquisa sugerem que Maria Firmina dos Reis foi uma mulher que trouxe para a literatura brasileira uma inovação em sua forma de abordar os personagens negros. Diante disso, se pode concluir que este estudo contribui para a valorização da memória dos povos negros num contexto em que esses personagens eram minimizados pelas obras em que figuravam. A pesquisa também contribui para uma revisão do cânone romântico, ao se debruçar em uma autora negra e mulher, Maria Firmina dos Reis, que esteve ausente do cânone tradicional.
