“Todo caminho da gente é resvaloso”: por uma poética da travessia de Raimundo em A palavra que resta, de Stênio Gardel (2021)
Date
Authors
Journal Title
Journal ISSN
Volume Title
Publisher
Abstract
Na tradição literária, as personagens gays foram representadas sob um viés patologizado, herança de um padrão eurocêntrico, branco e cisheterossexual. Tal representação começou a ser questionada e gradualmente transformada a partir da segunda metade do século XX, quando a luta LGBTQIAPN+ ganhou maior visibilidade e força política. Essa realidade influenciou a publicação de literatura na contemporaneidade brasileira, como se observa no primeiro romance de Gardel, que centraliza a trajetória de Raimundo, gay, impedido de viver sua sexualidade na narrativa, encontrando alguma possibilidade de aceitação na velhice, ao conviver com uma travesti, uma ex-prostituta e um homem frequentador de cines pornôs. Diante desse cenário, e considerando a relevância da produção literária gay, este trabalho objetiva analisar as travessias realizadas pela personagem Raimundo nos espaços do sertão em A palavra que resta, de Gardel (2021). Para isso, fundamentamo-nos nas contribuições de Resende e Schøllhamer quanto à crítica contemporânea e literária; Silva e Lugarinho acerca da “literatura gay”; Franco Júnior e Santos quanto ao conceito de “espaço”; Piva e Dalcastagnè em relação à “travessia” e deslocamentos de personagens; Nolasco e Silveira para problematizar as concepções de gênero e sexualidades, além de outras(os) estudiosas(os). A partir desse conjunto teórico, a análise demonstrou que a movimentação do protagonista é quase sempre condicionada pelo olhar e pelo julgamento do outro, raramente se configurando como livre. Todavia, também notamos que foi no ato de travessia que Raimundo encontra a possibilidade de construir caminhos que o afastam das violências moral e física que marcaram sua trajetória.

