Testando a hipótese da atração de predadores para os cantos defensivos de lagartos noturnos
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A predação é uma das principais pressões seletivas que moldam o comportamento das presas, favorecendo a evolução de estratégias antipredatórias, incluindo o uso de sinais acústicos. Entre essas estratégias, as vocalizações defensivas podem desempenhar diferentes funções, como a de intimidar o predador, alertar coespecíficos ou ainda atrair predadores secundários. Neste sentido, a hipótese do alarme de invasão (burglar alarm) propõe que sinais emitidos por uma presa durante um ataque podem atrair um segundo predador, que, ao interagir com o predador inicial, aumentaria as chances de escape da presa. Embora essa hipótese tenha sido testada para sinais visuais e químicos em sistemas aquáticos, ainda há escassez de evidências em relação a sinais acústicos e em ambientes terrestres. Neste contexto, testamos a hipótese de que as vocalizações defensivas do lagarto noturno Hemidactylus agrius atuam como alarme de invasão, atraindo a coruja Athene cunicularia. Foram conduzidos experimentos acústicos (playback) em campo, nos quais corujas-alvo foram expostas a vocalizações defensivas de H. agrius, bem como a um controle experimental positivo e um negativo. Cada ensaio consistiu em um período de habituação seguido pela reprodução do estímulo sonoro, com registro das respostas comportamentais das corujas. Analisadas três variáveis: reatividade, fonotaxia positiva e tempo de latência. Realizamos 62 ensaios comportamentais, dos quais 56 apresentaram alguma reação aos estímulos. Não houve diferença entre os grupos experimentais quanto à reatividade, à probabilidade de fonotaxia positiva ou ao tempo de latência. Encontramos que as vocalizações defensivas do lagarto não modificaram a dinâmica de resposta, nem aumentaram a probabilidade de aproximação das corujas. De modo geral, os resultados não corroboraram a hipótese do alarme de invasão para o sistema estudado, indicando que as vocalizações defensivas de H. agrius não promovem a atração de predadores secundários. Com isso, descartamos a hipótese de que as vocalizações defensivas de H. agrius possuem a função de atrair predadores secundários. Este é o primeiro estudo que testou a hipótese de alarme de invasão para vocalizações defensivas de lagartos, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a função da comunicação acústica em contextos antipredatórios.

