Em curvas: atos de escrita de mulheres e suas ressonâncias
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O presente estudo se propôs a investigar os processos dinâmicos em uma experiência de escrita de mulheres, partindo do percurso e interesse da pesquisadora em analisar as relações entre o ato de escrever e os atravessamentos da cultura. A esse contexto, tais práticas são endereçadas a um lugar fundante capaz de evocar elucubrações singulares, ao passo em que se oportuniza produções subjetivas às escreventes. Alicerçando-se, desse modo, em uma diversidade de fontes teóricas na composição de seu mapeamento, mediante a contribuição de autores e autoras referências nesta área, mas instituindo a importância de observar fenômenos- vivos a partir de processos experienciais. Nessa intenção, a construção/invenção de um atelier de escrita de mulheres surgiu como caminho possível para as investigações, percorrendo as sutilezas que só a arte dos encontros pode proporcionar aos sujeitos, ao auxiliá-los na constituição — e no confronto — de suas marcas, de seus traços, de seus corpos. A escrita se apresenta, nesse trajeto, enquanto movimento, um movimento de ação, elucidando a questão que enraíza a pesquisa, uma vez que esta busca compreender como ressoam os atos de escrita de mulheres em meio ao campo sócio-histórico-cultural que tanto as desatina, as embaraça. Tratando-se, a esse rigor, de um estudo de natureza qualitativa e que concerne em suas bordas as pistas dos métodos etnográficos-cartográficos, ao se propor a um trabalho com as mulheres e suas escritas-atos, a maneira em que lança mão de procedimentos estruturantes, abrindo portas para a criatividade e seus deslocamentos inventivos. O atelier configurou o campo empírico da pesquisa, ambiente sensível no qual mulheres experienciam percursos inventivos de escrita que possibilitam processos de atenção a si presentes na construção do devir consciente. O desafio da pesquisa foi investigar a experiência humana em ato, e não apenas os conteúdos da experiência do atelier. O devir-consciente é processo de um entendimento alçado à invenção, um ato de tornar explícito, claro e intuitivo algo que nos habita como mulheres de modo pré- reflexivo, opaco e afetivo. Trata-se de conhecer a experiência de mulheres nos atos de escrita e na reflexão coletiva sobre a experiência em seu caráter de atividade, de prática, ressaltando em seu caráter mutável e fluido, as ressonâncias. A tecitura se deu, portanto, no embarque inaugural de novas produções que se aproximaram intimamente de novos viveres e na construção constante do conhecer a partir das práticas de escrita que são alçadas às produções de si e do outro. Pudemos compreender que, no pulsar coletivo do atelier, os atos de escrita de mulheres revelaram-se mais do que produções textuais, foram movimentos de reinscrição de si, espaços que consolidaram uma retomada simbólica da letra, da voz, da imagem e da escuta. Ao longo do estudo, aflorou não apenas a potência singular de cada escrevente, mas a força ressonante de uma escrita que se constrói em rede, atravessada por memórias, silenciamentos e retomadas. As produções, ainda que diversas em forma e conteúdo, partilhavam uma ética do cuidado e da reconstrução, apontando que escrever, para estas mulheres, não era apenas um fim, mas uma prática de existência, elaboração e reconhecimento. O fazer-se [em escrita] inaugurou territórios, deslocando o atelier do campo da criação isolada para o da afetação mútua e da reconstrução subjetiva.

